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APÓS 7 ANOS

Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita

Fechado há sete anos, espaço retoma atividades com mostra dedicada ao artista alagoano e reúne obras marcadas por força expressionista e imaginação simbólica

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Imagem ilustrativa da imagem Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita
| Foto: @Ailton Cruz

Pierre Chalita montou em um cavalo uma única vez na vida. A queda foi, segundo ele mesmo, “medonha”. Os cavalos que lhe interessavam eram outros: os da imaginação, aqueles que a mitologia grega mandou ao mundo com asas. O Pégaso entrou em sua pintura como símbolo de imortalidade, como tensão entre Eros e Tânatos, entre a força que cria e a ideia da morte. Nas telas, o cavalo virou “energia vital, manifestação do humano no divino”, como o artista definia.

Chalita morreu em 2010. No entanto, a partir desta terça-feira (26), o movimento e a dramaticidade de suas obras poderão ser redescobertos pelo público na Pinacoteca Universitária da Ufal, no Centro de Maceió. Com a exposição Pierre Chalita, a Pina reabre depois de sete anos fechada. A visitação gratuita segue até 21 de agosto, de terça a sexta-feira, das 9h às 17h.

A escolha de Chalita para inaugurar o novo ciclo da Pinacoteca não é casual. Além de professor, arquiteto, cenógrafo, restaurador e colecionador, também foi, por um período, figura diretamente ligada ao espaço e nome decisivo da arte alagoana. Para o designer e curador Rafael Almeida, que iniciou sua trajetória nas artes visuais como bolsista na própria Pinacoteca da Ufal, a escolha tem um peso simbólico preciso.

“Pierre Chalita foi uma escola de artistas. De Eva Le Campion a Reinaldo Lessa, ele amava ensinar e falar sobre arte. Aliás, ele amava a arte de uma forma abrangente, tanto que foi um dos mais importantes colecionadores de Alagoas. Hoje, com essa exposição, que vem de uma pesquisa muito minuciosa da curadora, a museóloga Hildênia Oliveira, podemos reconhecer Pierre Chalita e iniciar mais uma vez uma viagem pelas muitas dimensões desse artista tão relevante para a arte alagoana. Digo, inclusive, que há uma força tão significativa em Pierre Chalita que, mesmo agora, ele segue fundamental para a formação de artistas que estão por vir.”

Imagem ilustrativa da imagem Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita
| Foto: @Ailton Cruz

Nascido em Maceió, em 1930, filho de imigrantes libaneses, Chalita construiu uma trajetória que cruzou Recife, Rio de Janeiro, Madri e Paris antes de voltar ao Brasil. Em Madri, estudou na Academia Real de San Fernando sob orientação do pintor Valcerde. Em Paris, frequentou a Escola de Belas Artes, com Chapelain-Midy. A Unesco o contratou como decorador-chefe do filme Les Mimes Orienteaux et Occidenteaux, de Jean Doat e Paul Bordry.

De volta ao Brasil, ingressou por concurso no corpo docente da Universidade Federal de Pernambuco. Restaurou o Palácio do Barão de Jaraguá e a Assembleia Legislativa de Alagoas. Coordenou projetos de restauração em Porto Calvo, Marechal Deodoro e Penedo. E, enfim, rendeu-se de vez à pintura.

Foi na pintura que Pierre Chalita deixou sua marca mais indelével. Ele trabalhava a partir do expressionismo, mas ultrapassava seus limites — o que sua companheira, Solange Lages, chamou de “transexpressionismo de Chalita”. A pincelada era identificável, carregada, intensa.

Nas telas, o que parece caos no início vai revelando, com o tempo, figuras ocultas que emergem da contemplação, fenômeno que os pesquisadores João Batista Neto e Rosana Carnielli associam à pareidolia, quando o olhar humano identifica formas dentro de padrões aparentemente abstratos.

Imagem ilustrativa da imagem Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita
| Foto: Renner Boldrino

“Em suas obras surgem imagens sutis e muitas vezes ocultas dentro da composição principal”, escrevem, em artigo publicado recentemente. Eles apontam um pégaso cercado de pássaros que revela, para quem persiste no olhar, um segundo cavalo, com o braço do primeiro formando o pescoço da segunda figura. E, depois, revela o mundo.

“Chalita é monumental, irreverente. Ele traz o cru do ser humano, a inquietude, e leva o público para outro patamar de pensamento artístico contemporâneo”, afirma Hildênia Oliveira. A curadora trabalha há dois anos na preservação do acervo de Pierre Chalita, o que lhe permitiu uma visão única dessas nuances da obra do artista alagoano.

Na exposição que reinaugura a Pinacoteca, as obras estão organizadas em três conjuntos. Em Do Baile, as cenas são densas, com cores quentes e pinceladas marcadas. É a vida humana em ebulição, suas tensões e contradições encenadas nas telas. Em Paraíso, o clima muda: cores mais frias, estranhamento, uma ideia de perfeição que o próprio artista parece questionar enquanto pinta. Em Brasil 500 anos, o olhar se volta para a história do país, misturando tempos, símbolos e narrativas em constante movimento.

A artista visual Gabi Coêlho, entre os primeiros visitantes do novo espaço da Pinacoteca, aposta que as obras que compõem o conjunto Brasil 500 anos vão capturar a atenção do público logo na entrada.

Imagem ilustrativa da imagem Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita
| Foto: @Ailton Cruz

“O que vai chamar mais naturalmente a atenção das pessoas é essa série das três telas grandes. São obras riquíssimas”, adianta.

Sua preferência pessoal, no entanto, ficou em outro lugar.

“Eu particularmente gostei muito da série Do Baile. Acho que tem uma coisa de sedução, conversa, de certa maneira, com as temáticas que exploro no meu trabalho também. Pierre Chalita, definitivamente, não está no passado e devemos reconhecê-lo, redescobri-lo. Eu mesma o conhecia apenas pelo nome e por poucas obras, nunca havia apreciado as pinturas de perto até então. É uma oportunidade única”, diz Gabi Coêlho.

A mostra também apresenta retratos de Chalita feitos por outros artistas, entre eles Solange Lages Chalita e Dydha Lyra. As obras levam memória e afeto à exposição, com a figura do mestre vista pelos olhos de quem conviveu com ele.

VIVA A PINA

O museu de arte contemporânea da Ufal foi inaugurado em 24 de setembro de 1981. Funcionou inicialmente no subsolo do Museu Théo Brandão, no Jaraguá, e transferiu-se, em 1988, para o Espaço Cultural Universitário, no Centro, onde ocupava três salões no primeiro andar.

Imagem ilustrativa da imagem Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita
| Foto: @Ailton Cruz

A restauração do espaço contou com suporte administrativo-financeiro da Fundepes. Durante o período em que ficou fechado, parte das obras do museu apresentou danos, e a equipe de museólogos trabalhou, nos últimos meses, no tratamento desse acervo antes da reabertura. O maior trauma, no entanto, foi a falta que o espaço fez para artistas e apreciadores.

“É um momento simbólico para a Pinacoteca e para a própria Ufal. Temos poucos espaços de museu no estado, e este é um museu universitário que carrega a memória de gerações que se formaram sem ter tido contato com esse acervo”, pontua a museóloga Cintia Rodrigues.

Para Rafael Almeida, a reabertura da Pina inaugura um novo momento para a arte alagoana.

“Quando pensamos em sete anos, é uma geração de jovens que não teve acesso ao acervo fixo do espaço e à vivência de um museu de arte contemporânea. O acervo da Pinacoteca é precioso, com obras raríssimas, como croquis de Vera Arruda, que, nos anos 2000, realizou uma exposição ao lado de Daniela Aguilar. Um desses croquis originais é um vestidinho que Vera fez para a filha Maria João. É uma raridade cercada de delicadeza”, relembra.

Imagem ilustrativa da imagem Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita
| Foto: @Ailton Cruz

A reabertura homenageia também Rogério Gomes, artista nascido em Anadia que fundou a Pinacoteca em 1981 e dirigiu o espaço em dois períodos. Seu nome fica registrado neste retorno como parte do que a instituição é.

Para a museóloga Cármen Lúcia Dantas, a Pinacoteca sempre teve dois papéis fundamentais na arte em Alagoas: ser a casa dos artistas que produzem na contemporaneidade e o espaço central da pesquisa.

“Um grande tento marcado pela nossa Ufal, no campo cultural, é a reabertura de sua Pinacoteca, agora renovada em seu circuito expositivo e fortalecida por um setor de pesquisa que atua como laboratório de pensamento e criação, aberto às experiências contemporâneas das artes visuais”, define a museóloga.

“Destaco a homenagem ao artista Rogério Gomes, seu primeiro diretor, além da exposição individual de Chalita, artista que deixou uma marca singular na arte brasileira pela intensidade de sua pincelada expressiva e pela força humana e comportamental presente em sua temática. Uma visita indispensável, capaz de sensibilizar, provocar reflexões e reafirmar a potência da arte como experiência formativa”, finaliza.

Imagem ilustrativa da imagem Pinacoteca da Ufal reabre com exposição de Pierre Chalita
| Foto: @Ailton Cruz

O espaço reformado ganhou em acessibilidade e versatilidade. Gabi Coêlho resume o que encontrou: “É certamente uma das melhores galerias que Alagoas possui. A reabertura é um marco e um instrumento importantíssimo para Alagoas".

O diretor da Pinacoteca, Victor Sarmento, olha para o que vem a seguir. “A gente quer que essa reabertura impulsione jovens artistas e que eles conheçam também os nomes já consolidados. A ideia é promover essa troca entre artistas, sociedade e museus, criando uma energia que se expanda e mantenha esses espaços vivos por muitos anos”.

A Pinacoteca Universitária fica na Praça Sinimbu, no Centro de Maceió, e funciona de terça a sexta-feira, das 9h às 17h. A entrada é gratuita.

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