FARSA REVELADA
O poeta que mentiu para Fernando Henrique Cardoso em visita a Viçosa
Em visita a Viçosa em 2005, Fernando Henrique Cardoso pediu para conhecer a casa da avó; imóvel havia sido demolido e Sidney Wanderley indicou outra residência; episódio virou curiosidade local
Na segunda-feira, 26 de dezembro de 2005, entre o Natal e o Ano-Novo, o telefone tocou cedo. Do outro lado, o então prefeito de Viçosa, Flaubert Torres, contava ao poeta Sidney Wanderley que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e dona Ruth queriam ir ao município conhecer a casa onde viveu a avó materna de FHC, Cândida Rego. Wanderley, considerado pelo prefeito “um historiador”, tomou um susto. Nunca fora historiador. Mas não corrigiu ninguém.
Correu para a residência do pai, ex-agente do IBGE em Viçosa, que, segundo o poeta, conhece o município casa por casa. O endereço, soube ali, era na Rua do Cravo (Rua Senador Ismael Brandão - homenagem ao coronel que inspirou Paulo Honório, o protagonista de São Bernardo, de Graciliano Ramos). A referência bastava: passada a igrejinha, a primeira casa depois dela era a casa da avó do ex-presidente. Wanderley chegou antes da comitiva para conferir.
No local, nada da casa. Havia brita, saco de cimento, vergalhão, tijolo empilhado, poeira. O imóvel tinha sido demolido para dar lugar a um mercadinho com uma residência no primeiro andar.
A comitiva chegaria em menos de uma hora. “Eu pensei: o homem veio de São Paulo, é o presidente FHC, dona Ruth vem com ele, vou mostrar uma casa derrubada? Isso é desumano”. Wanderley olhou à volta. Para a frente da igrejinha, só casa feia. Do mesmo lado da igreja, porém, a segunda casa era uma graça. Portãozinho, três janelas, pintura nova. “Todo mundo no interior pinta as fachadas em dezembro”, conta. O poeta elegeu aquela. Esperou, rezando para que o dono da casa não escolhesse justamente aquela tarde para sair ao portão e desmascará-lo.
Era uma da tarde, sol de rachar, a comitiva chegou. Com FHC e dona Ruth vieram o então senador Teotônio Vilela Filho (que, meses depois, seria governador), o presidente do Senado, Renan Calheiros, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, e o ex-senador Guilherme Palmeira. “Poder em série, a Câmara, o Senado. Era o Brasil em Viçosa”, resume o poeta. A Rua do Cravo inteira veio para as calçadas, mas manteve distância. “Se fosse Lula, ninguém conteria o abraço. Já FHC impunha outra coisa, uma distância, cortesia”, diz o poeta. Dona Ruth levou a mão ao braço do marido e disse: “Fernando, que graça de casinha”. Ele concordou, visivelmente emocionado. Olharam para o portão fechado, para os vitrais, para o número. Ninguém saiu de dentro da casa. Não deu tempo de desmascarar o poeta.
FHC voltou a São Paulo e retornou outras vezes a Viçosa, apenas para ver a casinha, sem suspeitar da troca. Hoje, interditado pelos filhos em razão da idade e da condição de saúde, não tem mais como saber. “Foi uma mentira piedosa, presidente. Seria desumano dizer: olha, a casa da sua avó é esse vergalhão, essa brita, esses tijolos e essa poeira. Só escombros. Foi um ato de humanidade”, afirma o poeta alagoano.
O caso teve desdobramentos. Seis meses depois, Wanderley voltou a Viçosa e passou na padaria do Creso. O padeiro riu e deu a notícia: “Rapaz, depois daquele dia, ninguém diz mais que a casa era da avó do Fernando Henrique. A casa passou a ser do próprio FHC. Daqui a pouco vão dizer que ele nasceu em Viçosa”. O imóvel fora posto à venda por 300 mil reais, valor alto para os padrões locais da época. “Sem querer, eu criei uma crise imobiliária na minha cidade”, brinca Wanderley.
A dona real do imóvel, Ana Maria dos Anjos, hoje com 65 anos, só soube da história no ano passado. Professora aposentada, nasceu na mesma rua, em outra casa, e herdou o imóvel da mãe. Antes, a casa pertencera ao ator Paulo Gracindo, dono de várias propriedades na rua. Um tio de Ana Maria comprou de Gracindo, e dele a casa passou para a mãe da professora.
Ao ver os registros da visita presidencial diante da sua própria fachada, com FHC e dona Ruth na calçada, e ao ouvir a história da mentira, Ana Maria riu por vários minutos, incrédula com o “desdobro de um poeta em um ex-presidente da República”. E Sidney Wanderley agradeceu. “Obrigado por não sair na sua porta no dia 26 de dezembro de 2005 e estragar a infância de um ex-presidente. Deus é maior e nos protege”.