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PHILIP GLASS EM VIÇOSA

Sidney Wanderley imagina concerto de Philip Glass em Viçosa no livro que marca seus 50 anos de poesia

Aos 67 anos, poeta maior da literatura alagoana desaposenta-se pela segunda vez e celebra meio século de sina poética; no caminho, cinquenta anos de poesia, cartas de Drummond e muitas histórias

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Poeta viçosense lança "Philip Grass em Viçosa"
Poeta viçosense lança "Philip Grass em Viçosa" | Foto: AILTON CRUZ

Philip Glass não tem a menor ideia. Aos 89 anos, provavelmente segue tranquilo em Manhattan, sem saber que um poeta alagoano o embarcou — por delírio e por escrito — num trem rumo a Viçosa, onde deve executar a ópera Einstein on the Beach em cima da Ponte Velha sobre o Rio Paraíba, numa apresentação de quatro horas e meia, diante de uma plateia viçosense historicamente treinada em Calcinha Preta. O sequestro está no novo livro de Sidney Wanderley, Philip Glass em Viçosa, que a Editora Matriz lança agora, com um caprichado projeto gráfico de Fernando Rizzotto. Cinquenta poemas para marcar cinquenta anos de ofício.

O problema é que Sidney Wanderley estava aposentado. “Eu espero não ser um Silvio Caldas, que todo ano se aposentava”, havia dito, em 2023, quando anunciou a demissão da poesia depois de uma contabilidade constrangedora: quatro poemas em 2018, três em 2019, dois em 2020, um em 2021, zero em 2022. Ele temia, com razão, os números negativos. Fechou a conta, escreveu um verso de despedida e pendurou as chuteiras. Foi a segunda aposentadoria. A primeira, em 2004, durou quatro anos e gerou, na volta, o livro Chuva e não: “Chuva quando chove poesia, não quando nada há para colher”, explica.

Desta vez, a comichão da poesia voltou em setembro de 2025. O poeta estava no sofá, ouvindo Glass. “Eu já mostrei a minha produção, zerou, parei”, havia dito. Agora ri do próprio desmentido. “Eu espero que eu não tenha mais tempo de desmoralizar uma terceira vez. Por isso que eu acho que preciso morrer com uma certa brevidade. Senão é uma vergonha. A minha moral está completamente abatida, desacreditada”, ri o poeta.

O CONCERTO NA PONTE

O poeta Sidney Wanderley na juventude
O poeta Sidney Wanderley na juventude | Foto: ACERVO PESSOAL

Wanderley quase não sai mais de casa. Quase não sai dos livros. Quase não sai de si. Ele conta que percebeu que, para ele se deslocar, só mesmo arrastando Glass junto — e para Viçosa, a cidade partida ao meio pelo Paraíba, costurada por duas pontes, Velha e Nova. Einstein on the Beach, estreada em 1976 no Festival de Avignon, completa em julho os mesmos 50 anos que o poeta agora celebra. A coincidência era um convite bom demais para recusar.

No poema-título, Esperando Glass, escreve: “Há já uns cinco verões / que não saio de casa, / que não saio dos livros, / que não saio de mim. / Quanto à música, / um mergulho na rede, / naufrágio entre sons / e alheamento do mundo. / Isso cessará por certo / quando Philip Glass vier à Viçosa”.

A ópera tem quatro horas e meia. Wanderley contempla, com certo sadismo, a cena imaginária: quatro horas e meia de Glass para uma plateia que, segundo ele, jamais o ouviu. “Vai ser uma tarefa hercúlea, mas eu levarei Philip”. Quem insistir em lê-lo ao pé da letra, perde o trem. “É um ‘Esperando Godot’. Ele jamais virá. Mas no meu sonho, sim. Quando ele vier, vai ser a revolução viçosense”.

Registro exibe a "quase-bienal" promovida por Sidney Wanderley e Fernando Sérgio Lyra no lançamento do livro "Hai-quase", em 2002, no Cine Arte Pajuçara, em Maceió. Da esq. para a dir.: Raduan Nassar, James Amado, Ariano Suassuna, Sidney Wanderley e Luís Fernando Carvalho
Registro exibe a "quase-bienal" promovida por Sidney Wanderley e Fernando Sérgio Lyra no lançamento do livro "Hai-quase", em 2002, no Cine Arte Pajuçara, em Maceió. Da esq. para a dir.: Raduan Nassar, James Amado, Ariano Suassuna, Sidney Wanderley e Luís Fernando Carvalho | Foto: Juarez Cavalcanti

Há uma política subterrânea na brincadeira poética. Depois que Donald Trump, “o idiota laranja”, segundo Wanderley, rebatizou o Kennedy Center, nos EUA, Glass proibiu que qualquer peça sua fosse tocada ali. O poeta viçosense lhe oferece um palco melhor: a Viçosa.

AMIZADE EPISTOLAR

Wanderley é um remanescente da geração 80, e sua poesia foi festejada por gente como Ariano Suassuna, José Mindlin, Affonso Romano de Sant’Anna e Raduan Nassar. Esse último lhe pôs como “membro da mais reduzida tribo”, em uma mensagem que exalta a poesia do alagoano.

Mas o nome que o viçosense não pode jamais deixar de mencionar é outro: Carlos Drummond de Andrade. “Rua Conselheiro Lafayette, 60, apto 701”. Foi desse endereço que, em abril de 1980, saiu um envelope amarelo endereçado a um professor de biologia do Colégio Marista. Dentro, uma carta dirigida ao “Caro Viçosense (In)culto e Perspicaz” — pseudônimo com que Wanderley, aos 19 anos, havia assinado um ensaio sobre o suicídio na obra de Drummond. O ensaio chegara às mãos do poeta maior por intermédio do sociólogo Fernando Batinga. “A ideia do suicídio na minha obra, que eu saiba, ainda não foi tratada por ninguém”, escreveu Drummond. “Você tratou com muito acerto”. Começava ali uma amizade epistolar entre dois monstros da poesia brasileira.

Sidney Wanderley mostra cartas enviadas por Carlos Drummond de Andrade
Sidney Wanderley mostra cartas enviadas por Carlos Drummond de Andrade | Foto: Ailton Cruz

Aos 20 anos, Wanderley correu pelos corredores do Marista com a carta na mão. Para ele, era um Nobel, conta. Mostrou ao coordenador do colégio. O coordenador leu, devolveu o papel e disse: “Mas que merda. Se fosse uma carta de Divaldo Suruagy, você teria emprego. Uma carta de Drummond, isso não vale nada”. Foi, diz o poeta, a primeira decepção literária da vida.

Seguiram-se sete anos de correspondência e telefonemas, com interregno. Algumas cartas estão publicadas em Notas sobre Leituras (2018). A última chegou três meses antes da morte de Drummond, em 1987.

64 POETAS, NENHUM DELES WANDERLEY

Nem todos os prestígios, porém, foram recebidos nesse meio século de poesia e 18 livros publicados. Em 2001, o cônego João Leite organizou uma Antologia dos Poetas Viçosenses do Século 20. Wanderley era, àquela altura, autor de três livros, elogiado de Raduan a Drummond, estudado em universidades e listado em jornais nacionais. O padre catalogou 64 poetas na cidade. Quatro deles moravam na mesma rua de Wanderley. Um era vizinho. Wanderley não estava entre os 64. “Eu queria ser o maior poeta do mundo. Não consegui ser poeta nem na minha cidade, nem na minha rua, nem no meu quarteirão. A desmoralização completa. Eu pensei seriamente em infartar, mas depois desisti”, brinca.

TV GAZETA: Sidney Wanderley e suas histórias são destaque no GAZETA CAST deste sábado (25), a partir das 20h, com apresentação de Maylson Honorato.

O consolo, se é que cabe o termo, veio tarde. No ano passado, uma consulta da Gazeta de Alagoas com cerca de sessenta leitores e especialistas em literatura apontou “60”, livro de Wanderley, como a obra de poesia mais importante do século 21 no Estado. Em Viçosa, na rua dele, ele segue não sendo.

Entre os 50 poemas do novo livro, há um que José Geraldo Marques, bardo santanense, considera o melhor que Wanderley já escreveu. O autor também gosta. Chama-se A Velha. “Com suas mãos nodosas e crispadas, / pelas dores da artrite malfazeja, / ela colhe, uma a uma, as torradas / coloridas no sol tênue da manteiga. / E após ter sua fome atenuada, / remigra para dentro de si mesma”. Wanderley fecha o livro. Olha para o repórter. “É o que a gente faz. A velha sou eu”.

"Philip Glass em Viçosa" está disponível para compra diretamente com o autor, por meio do WhatsApp: (82) 99935-4966. O preço é R$ 40.

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