REVISIONISMO OU REPARAÇÃO
Nome da Avenida Fernandes Lima é questionado por ligação histórica com o Quebra de Xangô
Pesquisadores e defensores públicos reabrem debate histórico e buscam reparar homenagem a político que usou intolerância religiosa contra adversários políticos
Todo dia, os maceioenses atravessam o nome dele. Cruzam-no no trânsito da manhã, passam por ele nos mapas de entrega, pronunciam-no quase sem pensar. A Avenida Fernandes Lima, o principal eixo viário da capital alagoana, carrega há décadas o nome de um homem que foi advogado, jornalista, escritor, político e, para uma parcela crescente de pesquisadores e instituições, também um dos responsáveis por um dos episódios de violência religiosa mais brutais da história do estado e do Brasil. O nome da avenida é também central na política alagoana do século 20. E agora volta ao debate público.
José Fernandes de Barros Lima, o Fernandes Lima, nasceu em Passo de Camaragibe e construiu uma trajetória que o levou a cargos como deputado, senador e, entre 1918 e 1924, governador de Alagoas. Durante sua atuação, foi associado a obras de infraestrutura, como estradas, pontes e escolas, o que lhe rendeu entre admiradores o título de “governador construtor”. A homenagem que dá nome à principal via da capital está ligada a esse legado.
Essa trajetória, no entanto, convive com outro episódio, anterior à sua passagem pelo governo, que sustenta as contestações atuais.
Em 1912, no contexto da disputa política contra o grupo liderado por Euclides Malta, Fernandes Lima integrou a articulação oposicionista que buscava enfraquecer o adversário político. Para isso, lançou mão de uma acusação: a de que Malta se sustentava no poder graças à proteção de sacerdotes de religiões afrobrasileiras. Era mentira — uma fake news baseada em preconceitos. Algo que não parece incomum nos dias atuais.
Fernandes Lima foi um dos organizadores da Liga dos Republicanos Combatentes, grupo paramilitar criado sob o argumento de enfrentar irregularidades políticas e que passou a atuar diretamente nas tensões daquele período, com um discurso moralista que tentava pintar adversários como “vilões”.
Após meses criando a narrativa de ódio contra o opositor, na madrugada de 1º para 2 de fevereiro de 1912, terreiros de religiões de matriz africana em Maceió foram invadidos e destruídos. Objetos sagrados foram quebrados, espaços religiosos depredados e praticantes agredidos. O episódio ficou conhecido como Quebra de Xangô e se tornou um dos registros mais violentos de intolerância religiosa na história do estado.
Euclides Malta acabou renunciando semanas depois, em março daquele ano. Nos anos seguintes, práticas religiosas de matriz africana passaram a ocorrer de forma mais reservada em Alagoas, fenômeno que ficou conhecido como “Xangô rezado baixo”.
É a partir desse contexto que a Defensoria Pública do Estado de Alagoas ajuizou uma ação civil pública pedindo a retirada do nome da avenida. O defensor público Othoniel Pinheiros Neto, coordenador do núcleo de proteção coletiva, afirma que a medida está fundamentada no direito à memória e à verdade.
“É importante destacar o impacto histórico da Quebra de Xangô de 1912 em Alagoas, episódio que levou ao chamado ‘Xangô rezado baixo’. Esse fenômeno representa o silenciamento, por décadas, das religiões de matriz africana no estado, cujas comunidades passaram a exercer suas práticas de forma discreta, muitas vezes por medo de perseguições e violências”, reitera.
O defensor afirma ainda que a proposta possui caráter educativo voltado à promoção dos direitos humanos e ao respeito das minorias. “A iniciativa de retirar o nome da avenida por meio do Poder Judiciário configura uma medida de caráter reparatório. A proposta busca transmitir à população a importância de não se manter homenagens a pessoas associadas a violações de direitos humanos”, diz.
A ação foi discutida em audiência que reuniu pesquisadores e especialistas. Participaram nomes como a ex-professora da Universidade Federal de Alagoas Rachel Rocha de Almeida Barros, os professores Ulisses Rafael e Edson Bezerra e a mestranda Lívia de Souza. Entre os materiais apresentados, estudos históricos foram citados como base para a argumentação.
“Registros históricos, como os do pesquisador Gonçalves Fernandes, na década de 1930, apontam que, diferentemente de outros estados como Bahia, Pernambuco e Maranhão, em Alagoas havia um cenário de retração e invisibilidade dessas manifestações religiosas. Esse contexto não decorre de vergonha, mas do temor gerado pela repressão vivida, que levou inclusive à migração de praticantes para outras regiões”, aponta Rachel Rocha.
A professora destaca que “a Quebra de Xangô passou décadas sem o devido estudo acadêmico aprofundado”. Segundo ela, mesmo que o episódio tenha ocorrido em 1912, os estudos só ganharam força a partir dos anos 2000, tendo como base principalmente registros de jornais da época. “O principal trabalho é o livro do professor Ulisses Neves Rafael, que analisa esse contexto de forma mais estruturada”, diz.
Para ela, o debate atual está ligado a transformações recentes no campo dos direitos civis. “Esse tema ganha força com o reconhecimento das populações afrodescendentes como parte fundamental da matriz cultural brasileira, com a defesa da liberdade religiosa e com a compreensão de Alagoas como um território plural e pluricultural”.
Fora do ambiente institucional, a proposta encontra leituras diversas. Parte da população avalia que a mudança teria pouco impacto prático no cotidiano, já que o nome tradicional seguiria sendo utilizado de forma corrente.
Outros maceioenses ouvidos pela reportagem apontam a medida como secundária diante de problemas urbanos considerados mais urgentes, como a desorganização de endereços, a existência de ruas com múltiplas denominações e a numeração irregular de imóveis, fatores que afetam diretamente serviços de entrega e deslocamento.
Há ainda quem defenda a permanência da homenagem com base na trajetória administrativa de Fernandes Lima, argumentando que sua atuação também está associada a obras que marcaram o desenvolvimento da capital e do interior do estado.