LITERATURA
Romance resgata os ‘currais do governo’ na seca de 1932
Em “Não volte sem ele”, Rafael Caneca reconstrói os campos de concentração criados no Ceará para conter retirantes


Em 1932, o governo do Ceará instituiu estruturas oficiais para conter retirantes da seca e impedir que chegassem à capital. Chamados de “currais do governo”, esses espaços funcionaram como campos de concentração destinados a segregar sertanejos pobres sob vigilância e controle. Esse episódio é o eixo de Não volte sem ele, romance de estreia de Rafael Caneca, publicado pela editora Mondru.
Servidor público e assessor jurídico do Ministério Público do Estado do Ceará, Caneca estreia na narrativa longa após anos de circulação no conto. O livro chega acompanhado de paratextos assinados por Grecianny Cordeiro e Ronaldo Correia de Brito e investe em uma ficção histórica que mobiliza pesquisa e imaginação para reconstruir um ambiente de violência de Estado, fé e resistência.
A trama acompanha Tomás, jovem enviado pelo pai à capital para encontrar o irmão Antônio. A travessia do personagem é marcada por fome, deslocamento forçado e confronto com as engrenagens de contenção montadas pelo poder público. A jornada individual dialoga com a experiência coletiva de milhares de nordestinos atingidos pela estiagem daquele tempo.

“Foram estruturas criadas para conter e segregar os mais pobres, sob uma violência estatal explícita, para evitar que os sertanejos pobres se deslocassem para Fortaleza e ‘sujassem’ a capital”, afirma o autor. Ao situar o romance nesse contexto, ele acrescenta: “Ainda assim, muitos sertanejos mantinham a esperança, amparados na sua fé e religiosidade”.
O livro surgiu no âmbito do Coletivo Delirantes, grupo de escritores que reúne nomes como Stênio Gardel e Marília Lovatel. Ao participar de uma coletânea sobre fatos marcantes da história do Ceará relacionados às antigas estações ferroviárias, Caneca escolheu como tema “A estiagem de 1932 e os campos de concentração / estação de Senador Pompeu”. O primeiro resultado foi o conto “Patu”. O material, no entanto, revelou uma dimensão narrativa que extrapolava o formato breve. Após dois anos de pesquisa e escrita, o texto ganhou a estrutura de romance. “Conhecer profundamente esse episódio me modificou. Reforçou sentimentos de repulsa por acontecimentos que não podem, de forma alguma, se repetir”, relata.
Para Ronaldo Correia de Brito, a publicação evidencia “a força e a permanência do Romance de 30 na nova geração de escritores”. Grecianny Cordeiro observa que “o sertão pulsa em cada página, assim como a coragem de um povo forjado na fé e na esperança”. As leituras situam Caneca em diálogo com uma tradição literária que enfrenta a seca como matéria narrativa e como questão social.
Entre suas referências estão Machado de Assis, Graciliano Ramos e José Saramago. Na música, cita bandas como Iron Maiden, Dream Theater, Angra e Titãs, que, segundo ele, também inspiram sua escrita. Atualmente trabalha em dois novos projetos: um romance inspirado na queda do Edifício Andrea, em Fortaleza, em 2019, e um livro de contos que narram tragédias ambientadas em cenários paradisíacos.
