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CULTURA

Museus fora da rota

Apesar do rico acervo, espaços em Maceió convivem com baixa visitação e limitações estruturais

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Imagem ilustrativa da imagem Museus fora da rota
| Foto: Gazeta

Você tem ido a museus? A pesquisa Cultura nas Capitais, da Fundação Itaú Cultural, que avalia o acesso em diferentes áreas culturais nas capitais brasileiras, mostra que, entre leitura, jogos, cinema e outros setores, a ida a esses locais representa a sexta média mais baixa nas metrópoles do país, com apenas 27% de frequência — a maior delas é leitura, com 62%.

Em Alagoas, o número é menor ainda, isso porque somente 11% do público de Maceió costuma ir aos museus. Em comparação às outras capitais, o município ocupa o penúltimo lugar no ranking, à frente apenas de Boa Vista, em Roraima, com 5%.

Formada em museologia no Rio de Janeiro, na década de 1970, Carmen Lúcia Dantas conta que, naquela época, os museus de Maceió eram engessados, com coleções não sistematizadas. “Podia parecer um cenário nada estimulante, mas, por incrível que pareça, naquela década estava havendo uma efervescência artística por aqui, mesmo enfrentando as repressões do regime ditatorial em que vivíamos. Época dos festivais, dos concursos de literatura, do teatro, da música, das artes plásticas”, relembra.

Hoje, Carmen afirma ser o pior momento para a museologia em Alagoas. “Difícil ou mesmo impossível, hoje, que o público se sinta estimulado a visitá-los. Até porque alguns estão fechados, enquanto outros sobrevivem graças ao empenho pessoal de alguns abnegados funcionários. Uma vergonha a falta de atenção do poder público para com nossos museus”, disse.

Misa apresentou redução do número de visitantes entre 2024 e 2025
Misa apresentou redução do número de visitantes entre 2024 e 2025 | Foto: Divulgação

VISITAÇÃO

Segundo a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secult), em 2025, os números de visitação evidenciam comportamentos distintos entre o público depois da pandemia. No caso do Museu da Imagem e do Som (Misa), esse número apresentou uma redução de 599 visitantes com relação a 2024, saindo de 2.519 para 1.920 pessoas.

Segundo Mira Dantas, coordenadora do Sistema Alagoano de Museus, isso poderia ser explicado pela restrição dos dias e horários de funcionamento. “Em muitos casos, os museus operam em horários limitados, predominantemente em dias úteis e em turnos que coincidem com a jornada de trabalho e de estudo da maior parte da população, o que dificulta o acesso de trabalhadores, estudantes e visitantes ocasionais. Tal realidade, por sua vez, está diretamente relacionada à insuficiência de recursos humanos, financeiros e logísticos”, conta.

O Misa guarda a história maceioense em fotos, fitas cassete, discos, rádios e máquinas fotográficas. Em 1997, o museu foi fechado por causa das más condições do local e reaberto após restauração em 2001.

Em contrapartida, o Museu Palácio Floriano Peixoto (Mupa) passou de 5.205 visitantes em 2024 para 6.980 no ano passado. De acordo com Mira, esse aumento reforça a importância de estratégias de gestão, programação e articulação institucional voltadas à ampliação do acesso e à atração de diferentes públicos.

Mupa já foi sede do Governo de Alagoas
Mupa já foi sede do Governo de Alagoas | Foto: Divulgação

Observando os Misa e o Mupa, é possível entender as diferenças que influenciam os dados apresentados na pesquisa. O Mupa, antiga sede do Governo de Alagoas, nunca foi fechado para restauração. Cecília Melo, supervisora do local, explica que esse aumento nas visitas se daria ao crescimento do turismo e do setor hoteleiro no estado, ao aumento de exposições temáticas no local, agendamentos do espaço relacionados ao editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e de uma certa saturação no turismo na orla.

Ela conta que somente 20% a 25% dos visitantes do Mupa são alagoanos. “As visitas mediadas duram, em média, 30 minutos. Geralmente, o perfil dos visitantes é de casais, entre 25 e 65 anos, e famílias com 3 a 6 membros, em férias (escolares ou de trabalho). Temos também, muitos paulistas, pernambucanos, baianos e mineiros. No caso de estrangeiros, argentinos e colombianos”, relata.

Além disso, Cecília afirma que o elevador do local é de 1942 e possui peças obsoletas e inexistentes para reposição e, por isso, está inviável para uso. “O museu dispõe de rampas de acesso para cadeirantes e audiodescrição, por parte dos guias, do espaço museal”, disse a supervisora.

Se, por um lado, o Misa passou quatro anos fechado, por outro, o Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (MTB), que é de responsabilidade da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), enfrenta alguns desses episódios: entre 2000 e 2002, permaneceu fechado para reforma e, recentemente, ficou quase um ano de portas trancadas ao público por risco de desabamento de rebocos, sendo reaberto apenas em setembro de 2025 — ele estava fechado, inclusive, no seu aniversário de 50 anos, em agosto do último ano.

O acervo do MTB é formado por cerca de 30 mil peças de artistas do estado. A Gazeta de Alagoas tentou contato com os gestores do equipamento para entender os números de visitação e os problemas estruturais do local, mas não teve retorno.

“A minha formação fora do estado me fez ver que a arte brasileira estava aqui, na coleção de Théo Brandão, nas feiras públicas das pequenas cidades, na simplicidade do fazer artesanal e não no que eu havia estudado no meu curso no Rio, todo ele voltado para a valorização da arte europeia”, conta Carmen.

Fato é que o estado de Alagoas guarda coleções relevantes para a história do Brasil. O Mupa, com móveis dos séculos passados; o Misa, com seu acervo audiovisual da trajetória alagoana; o MTB, guardando peças nordestinas, brinquedos populares, arte indígena e peças religiosas; o Museu do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas guardando um acervo arqueológico e etnográfico do estado; o Memorial à República fazendo seu papel de mostrar a participação histórica do povo de Alagoas na formação da República do Brasil.

A lacuna nos números de visitação evidencia, sim, um conjunto de entraves estruturais, institucionais e de gestão que atravessam os museus de Maceió, mas também revela uma cidade que ainda não conseguiu transformar seus equipamentos culturais em espaços plenamente integrados à vida cotidiana da população. Entre prédios históricos com limitações físicas, horários restritos, ausência de políticas continuadas e dependência do fluxo turístico, os museus da capital seguem funcionando mais como exceção do que como hábito cultural.

O desafio, portanto, não está apenas em preservar acervos, mas em garantir condições para que eles sejam acessados, reconhecidos e apropriados pelo público local — condição indispensável para que a memória, afinal, cumpra sua função social.

*Sob supervisão da editoria

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