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Opinião

Nem sempre o remédio tradicional cura a doença: a ineficácia da elevação dos juros no combate à inflação

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Por Guilherme Marques Moura. Doutor em Desenvolvimento Econômico e professor da Escola de Negócios da Universidade Positivo (UP) | Edição do dia 26/05/2022 - Matéria atualizada em 25/05/2022 às 23h39

Os brasileiros têm se acostumado a uma nova rotina ao realizar compras, e cada vez precisamos de mais dinheiro para comprar os mesmos produtos. Esse é o resultado de um processo inflacionário, quando grande parte dos preços da economia são reajustados para cima. Admite-se como normal aumentos ou reduções de produtos específicos, mas, quando esse incremento é geral, temos um sinal de que algo não anda bem na economia. Com destaque, esse não tem sido um problema enfrentado apenas pelos brasileiros, com os preços crescendo ao redor do globo.

O Banco Central do Brasil (Bacen) tem utilizado a resposta mais comum à escalada nos preços: o aumento da taxa básica de juros da economia, a Selic. Nesse caso, pressupõe que as pessoas desejam comprar mais produtos do que está disponível na economia, um excesso de demanda. A Selic é basicamente a taxa de juros com a qual o governo pega dinheiro emprestado. Como o governo é o maior agente da economia e geralmente paga suas contas em dia, essa taxa se torna um parâmetro para todas as outras taxas de juros da economia.

O mecanismo por detrás dessa política é relativamente simples. Inicialmente, o Bacen anuncia que vai aumentar os juros, e, com isso, ocorre um aumento geral nas outras taxas de juros da economia. Como resultado, fica mais atrativo manter o dinheiro no banco ao invés de gastar, e mais caro pegar dinheiro emprestado nos bancos. Consequentemente, menos dinheiro é injetado na economia, menos produtos são vendidos. Com estoques cada vez maiores, a expectativa é que os vendedores abaixarão os preços, reduzindo a inflação.

Mas, o que acontece se os estoques dos vendedores não aumentarem? E se a fonte da inflação não for um excesso de demanda? Talvez o Bacen devesse repensar essas questões antes de aplicar novos aumentos de juros. Na prática, observa-se em vários setores uma escassez de insumos, causada principalmente pelos períodos de lockdown por conta da covid-19. Com isso, os vendedores têm produzido menos e cobrado mais caro pelos produtos. Nesse caso, é difícil imaginar que o aumento da Selic levará ao aumento dos estoques.

Alternativamente, grande parte dos produtos, apesar de feitos no Brasil, são precificados internacionalmente. Por exemplo, o óleo de soja pode ser vendido tanto no Brasil quanto na China, portanto, os preços nos dois países devem estar alinhados. Adicionalmente, ao longo da pandemia, o Real foi uma das moedas que mais se desvalorizou. Como efeito, os produtos importados ficaram mais caros, assim como aqueles produtos que o Brasil produz e podem ser vendidos para outros países. Esse efeito câmbio pesa diretamente no bolso do consumidor ao comprar o produto final e, indiretamente, no custo do produtor, tornando o preço dos produtos finais mais salgados.

Somando os dois efeitos, não teríamos necessariamente uma inflação causada por excesso de demanda, mas, principalmente, pela desvalorização cambial e pela falta de insumos. Nesse caso, possivelmente, o Bacen está usando um remédio que não “ataca o foco da doença”. No máximo, o incremento da Selic pode aumentar a demanda pela moeda brasileira e valorizar o câmbio, afetando indiretamente o preço dos produtos importados.

Outro efeito indireto da elevação dos juros é a perda de dinamismo da atividade econômica, isto é, talvez o remédio pode estar matando o paciente, que seria a economia brasileira. E pior, o trabalhador assalariado, geralmente é o mais afetado, afinal, como manter as contas em dia quando o salário aumenta uma vez por ano (quando aumenta) enquanto os preços crescem a cada ida ao mercado? Não é à toa que a inflação é denominada “o imposto sobre os mais pobres”.

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