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Opinião

Novos médicos: o ontem, o hoje e o amanhã

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Por Julio Peclat - presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular | Edição do dia 27/01/2022 - Matéria atualizada em 26/01/2022 às 22h48

Quando me formei, há quase 30 anos, todos os colegas médicos conseguiam vislumbrar em seu futuro algumas metas comuns para a sua atuação profissional: consultório, convênios, concurso público, ensino. Essas opções de carreira representavam os caminhos que tínhamos à frente e que seriam capazes de nos garantir alguma segurança para atuação profissional duradoura e relativamente bem remunerada.

Nas três últimas décadas vimos as dificuldades no relacionamento com as operadoras de planos de saúde se tornarem cada vez mais difíceis. O fim da ciranda financeira, que os mais jovens sequer conhecem, fez com que o ganho dessas empresas deixasse de estar vinculado às aplicações de mercado, e se transferisse, de fato, para a operação. Juntou-se a isso a criação de uma agência reguladora, focada nas relações entre operadoras e clientes. Naquilo que o dito popular chama de “briga entre o mar e o rochedo”, nós médicos, nos transformamos em “mariscos”, ou seja, susceptíveis e fáceis de atacar diante do crescimento de custos e da pressão por preços. A área da saúde é uma das que mais absorve seus avanços em todo mundo. Felizmente! Os avanços nos levaram a outros patamares em compreensão sobre a saúde, diagnóstico, prognóstico e tratamentos. Mas ao contrário do que ocorre em outros setores, o avanço tecnológico na saúde não representa redução de custos. Pelo contrário: enquanto a tecnologia avança, avança também a necessidade de profissionais médicos cada vez mais qualificados e atualizados com tudo isso, e dispondo, muitas vezes, desses equipamentos e tecnologias em nossos consultórios e clínicas. Precisamos de médicos mais bem preparados, atualizados constantemente e capazes de fazer, sempre que necessário, investimentos em mais capacitação e tecnologia, enquanto são pressionados a receber cada vez menos pelas operadoras de planos de saúde. Para aumentar essa complexidade, temos a questão da formação: infelizmente, uma grande parcela das faculdades de Medicina, em número atual absolutamente excessivo no Brasil, ainda forma médicos para o exercício profissional de 30 anos atrás, o que os deixam ainda mais frágeis diante do mercado. Profissionais despreparados e em número excessivo no mercado tornam seu trabalho muito mais barato para as operadoras. Sem disciplinas básicas consistentes e sem a incorporação de novas metodologias, como a telepropedêutica, as novas gerações não terão como oferecer aos seus pacientes todo o potencial da Telemedicina. Sem conhecer, em sua formação, os potenciais da Inteligência Artificial, das nanotecnologias e das biotecnologias em sua área de atuação, serão levados a acreditar e praticar soluções não fundamentadas na medicina baseada em evidências, e não perceberão que tudo isso deve e precisa estar a serviço do atendimento médico humanizado, que só um profissional seguro e bem formado pode oferecer. É urgente repensar a formação dos nossos jovens. Eles precisam sair das escolas médicas mais preparados nos fundamentos da prática médica e mais habituados ao uso das novas tecnologias que batem às nossas portas! A necessidade da incorporação das evoluções científicas e tecnológicas ficou evidente no processo de enfrentamento na atual pandemia, principalmente nos processos de busca de respostas rápidas (tanto diagnósticas quanto terapêuticas) para as novas demandas que se impuseram de forma repentina e inesperada. Resta saber se aprendemos a lição.

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