MÚSICA
Depois do K-pop, é a vez do J-pop: Por que gênero está tão popular?
Com crescimento expressivo da cultura dos animes, Japão exporta gênero que existe desde os anos 1990
É até clichê afirmar que o K-pop virou um dos grandes exemplos de soft power mundial. Adaptado à cultura ocidental e com um investimento expressivo do governo coreano, o gênero se tornou um titã do mercado da música nos últimos anos. Mas, atravessando o Mar do Leste, um país vizinho vem ganhando o mundo aos poucos, mesmo “sem querer”: é o Japão com o J-pop.
O gênero existe e faz sucesso no país asiático desde meados dos anos 1990, mas vem chamando a atenção de ouvintes do mundo todo graças à cultura dos animes (inegavelmente, o maior produto de exportação do Japão). Geralmente, músicas de J-pop são temas da abertura das animações japonesas – e a popularização dos filmes e séries tem alavancado artistas do gênero.
Conforme a Luminate, principal empresa de dados do mercado da música, as aberturas dos animes não apenas dão um aumento expressivo para os streams de artistas do J-pop como também ajudam os japoneses a exportarem seus sucessos mundialmente pela primeira vez.
A Luminate exemplifica com dados de streams da cantora japonesa Ado. Antes do lançamento da trilha-sonora do filme One Piece Film: Red, gravada por ela, em agosto de 2022, as reproduções de suas músicas no resto do mundo todo estavam bem próximas de zero. Com o lançamento da trilha do longa, porém, ela atingiu 16 milhões de reproduções no Japão e também teve um pico mundial, com quase quatro milhões.
Após One Piece Film, as músicas da artista nunca mais chegaram próximas ao patamar zero mundialmente – os streams mundiais, até mesmo, ultrapassaram os do Japão em alguns momentos. Ado voltou a ter um pico em outubro de 2024, quando lançou a música Kura Kura para a série Spy x Family.
Outros exemplos recentes envolvem a dupla japonesa Yoasobi, que, desde o lançamento da música de abertura do anime Oshi no Ko, Idol, em 2023, já acumulou 3,9 bilhões de reproduções. A faixa também se tornou a música japonesa a alcançar a posição mais alta da Billboard Global 200, ficando em 7º lugar. O feito só foi superado no ano passado por Iris Out, do cantor Kenshi Yonezu, abertura do anime Chainsaw Man — O Filme: Arco da Reze.
Afinal, o que é J-pop?
Diferente do K-pop, o J-pop não envolve, necessariamente, grupos de artistas treinados para cantar e dançar impecavelmente. O gênero surgiu de forma mais orgânica, abrangendo rock, hip-hop e R&B, por exemplo, e bem mais voltado ao mercado de música interno do que externo.
Segundo Lica Hashimoto, professora de Literatura Japonesa no Departamento de Letras Orientais da FFLCH-USP, o termo J-pop foi criado no final dos anos 1980 por Hideo Saito, diretor executivo da rádio J-Wave, para diferenciar o pop japonês do pop estrangeiro tocado na rádio.
Também divergente do K-pop, que tem uma base de fãs predominantemente feminina, o J-pop tem atraído mais o público masculino, segundo dados da Deezer enviados ao Estadão. Nomes populares do gênero, como AKB48, Yoasobi, Kenshi Yonezu, LiSA e Creepy Nuts têm atraído ouvintes homens, que chegam a ultrapassar 80% dos streams dos artistas na plataforma.
Com a maior comunidade de descendentes fora do Japão, o Brasil também tem se tornado um território próspero para o J-pop, avalia Eduardo Ribas, Editor Sênior da Deezer. Segundo ele, a entrada da Netflix na produção de animes popularizou ainda mais o gênero, que chega até a artistas brasileiros renomados, como Emicida, fã de animes e que já chegou a viajar ao Japão por conta das animações.
Por que o J-pop ainda não é tão popular quanto o K-pop?
Diferentemente da Coreia do Sul com o K-pop, o Japão não fez um investimento massivo para que o J-pop se tornasse uma ferramenta de soft power. Apesar disso, muito da cultura japonesa foi absorvida mundialmente, dos animes à gastronomia.
Segundo Lica Hashimoto, o Japão, na verdade, nunca precisou se preocupar exaustivamente em exportar o J-pop. Lilian cita que o país tem o segundo maior mercado musical do mundo, com valor estimado em US$ 2,9 bilhões – e, vale lembrar, uma população expressiva de 123 milhões de habitantes.
O que leva a um ritmo mais lento de popularização mundial envolve tanto as leis rígidas de direitos autorais no Japão quanto uma forte cultura de fãs. “Mais do que ausência de circulação internacional, houve um modelo diferente de internacionalização, mais orgânico e muito sustentado pelo fandom (comunidades de fãs que ajudam ativamente a divulgar artistas, músicas e conteúdos nas redes)”, diz Lica.